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  • Circe Palma

Março outra vez! Tudo de novo! E assim o ciclo da vida segue seu rumo!

No pátio da escola, um recomeço ou, para alguns um novo começo. Um espaço diferente, com novas propostas ou novos desafios! Os reencontros ou novos encontros, novos amigos... enfim. Nesta ciranda a vida retoma seu rumo. As águas de março fecham o verão, fecham as férias, fecham o descanso e tudo começa outra vez.


Ricardo segura muito forte a mão do seu pai! O coraçãozinho acelerado revela um medo que ainda não se apresentou de fato. Mas ele prevê que logo o pai irá deixá-lo ali, naquele campo de batalha e ... então tudo irá correr por sua conta. Olha para traz e vê sua mãe com a expressão triste de alguém que parece estar sofrendo também como ele.

Vá com seu pai querido, diz ela! Mas Rodrigo sabe que as palavras não traduzem a verdade. Ela quer que ele fique no seu colo e quando se abaixa para lhe dar um beijo, o menino percebe seus olhos marejados.

Mas, papai, tenta dizer. Eu posso voltar amanhã. Hoje todo mundo está com muito trabalho. O pai, olha, complacente e não responde apenas sorri e continua caminhando como se estivesse procurando alguém. E está. Onde estamos indo? E onde ele vai me levar, pensa o garoto angustiado. Faz nova tentativa. Papai, olha só, eu quero voltar com a mamãe. E numa última cartada, diz que ela está muito triste. Acho que está precisando de mim. Nada. O pai nem responde. Veja, Ricardo. Lá está sua professora.

Ai, meu deus! Diz ele bem baixinho, para o pai não ouvir. O que você disse? Não, eu não disse nada. Não tenho mais chance.

Sr. Sérgio cumprimenta educadamente a senhora de cabelos escuros, amarrados no alto da cabeça, vestindo um jaleco branco, comprido até a metade da perna. Bom dia! A senhora é Dona Fabiana? Sim. Este é Ricardo! Mas o menino se escondeu atrás das pernas do pai e ficou o menor que pode, numa intenção frustrada de que ela não o visse.

Em vão. Num sorriso largo, mostrando todos os dentes que pareciam não caber dentro da boca, ela o recebe com aparente carinho e toma sua mãozinha retirando-a de dentro da enorme e segura mão do pai de Ricardo. Ele está entregue o senhor pode ir. Mas... Não se preocupe ele vai ficar bem. As dez horas o senhor ou alguém da família pode vir buscá-lo.

Uma esperança para Ricardo. Alguém viria para resgatá-lo do cativeiro. A professora se afasta levando o menino e as outras crianças e desaparece no corredor do prédio. Sérgio fica um momento sem ação. Nunca tinha experimentado aquela sensação de perda. Sabia que era só um afastamento, mas o sentimento era de perda mesmo. Correu até a esposa e a abraçou numa espécie de consolação.

Enquanto seguiam para o portão de saída junto com os outros pais, perceberam que nem todos, aliás bem poucos, estavam com este sentimento de desolação. Não pareciam apreensivos.

Ricardo seguia com a professora, que lhe segurava a mão com firmeza. Estranho, pensa o menino. Ela tem uma mão macia. Aos poucos sentiu-se novamente seguro. Pela primeira vez, desde que entrara naquele pátio, ousou olhar ao redor. Viu outros meninos e meninas também assustados como ele. De alguma forma, isto o tranquilizou.

Sofia era uma menina loirinha, com fita azul no cabelo e parecia estar mais assustada do que os outros, pois ela chorava compulsivamente. Ricardo, amoroso, soltou a mão da professora e sentou-se ao lado dela. Pensou em acalmar a menina e, a ele também. Era tudo tão diferente da escolinha onde ele estava. Uma sala grande, muitas almofadas de um lado, poucos brinquedos e diversas mesinhas individuais.

Porque você está chorando? Eu quero a minha mãe! Dito isto o choro voltou a ficar mais alto e mais desesperador. O que você disse a ela, foi a pergunta dirigida acusadoramente a ele. Ricardo pensou se deveria chorar também, mas decidiu que não. A verdade sempre era a melhor solução, dizia sua mãe. Só perguntei porque ela tava chorando. Disse que queria a mãe dela. Só isso. E lutava para conter as lágrimas que, teimosas, tentavam rolar pelo rosto.

Muito bem crianças. Não há motivos para tristezas nem choros. Aqui nós vamos nos divertir muito. Vamos brincar, fazer amigos e descobrir coisas novas.

Ufaaa! Pensou o menino. Então acho que vai ser bom. Você não acha? Como é o seu nome? Sofia. O meu é Ricardo. E pronto nasceu aí uma bela amizade.

Sentem-se um em frente ao outro, orientou a professora. Sofia e Ricardo imediatamente se posicionaram e sorriram. Oba, ela parou de chorar, pensou Ricardo. Suas lágrimas, também foram embora.

Agora quero que cada um de vocês faça um desenho para o companheiro que sentou-se a frente. Podem usar tinta, lápis de cor, lápis de cera, o material que quiserem.

Ricardo foi até a estante onde havia muitos materiais e escolheu um envelope com EVA. Escolheu um vermelho e fez dois corações. Entregou um para a menina e guardou o outro. Pronto, disse, ao final de certo tempo. Este é para você. Mas você não pode mais chorar. Tá. E o outro, perguntou a menina? É para a minha mãe.Crianças, diz dona Fabiana. Arrumem todos os materiais. Seus pais já estão vindo para buscá-los.

E então filho? como foi seu primeiro dia de aula?

Muito bom, mamãe. Fiz isto para você!

Que lindo! Um belo coração, adorei. Encontrou amigos? Sim. A Sofia.


Comentário:

Sim, as águas de março fecham o verão, fecham as férias, fecham o descanso dos guerreiros. E tudo começa outra vez. No pátio da escola, de qualquer escola, podemos sentir a alegria das crianças, reencontrando os amigos, dos professores reconhecendo quem serão seus novos aluninhos e das mães, num misto de felicidade e tristeza. O afastamento de seus pequenos, ainda que por uma boa causa, lhes entristece um pouco, mas a certeza de que estarão bem encaminhados lhe traz alento.

A volta ao trabalho, ao ritmo talvez acelerado a que estamos submetidos, nos mostra a importância que a vida tem para cada um de nós. O reconhecimento dos colegas, a sensação de estar, de alguma forma, contribuindo para o bem estar do outro, o sentimento de pertença que nos faz reconhecidos nas nossas competências, tudo isto é o que a vida nos apresenta de melhor. Portanto, retomar esta constância nos nossos afazeres não só é necessário, mas também muito prazeroso. É sentir o pulsar da vida, da convivência. É ver nas nossas relações amorosas a cumplicidade, a parceria. É compreender e, ao mesmo tempo, sentir o encanto e a magia que a vida tem. Até que a cansaço nos faça parar novamente, por um breve tempo. E até que as águas de março voltem novamente.


  • Circe Palma


Decidiram que naquele dia iriam ao lago. O casal sempre gostou de passear às margens, caminhar pelos gramados verdes. Um contato com a natureza. A família tinha este hábito. O jovem Jones, com seus dez anos, era um nadador nato. Adorava a água. Logo que chegavam, mal a mãe instalava a toalha , o cesto com as frutas, os pratos, etc, arsenal que fazia parte obrigatória do passeio, e lá ia Jones, direto para a água. Os pais não se preocupavam com esta atitude, pois sabiam desta paixão do menino e confiavam, pois ele era um exímio nadador.

A intuição feminina aliada ao amor de mãe, são duas forças poderosas. Elizabeth estava um pouco ansiosa, naquela manhã. A todo momento dirigia seu olhar para o lago e ficava admirando o filho. Ele nada muito bem, não é mesmo, Charles? Sim, respondia o pai, sem compreender muito bem o porquê daquele olhar diferenciado das outras vezes em que iam para o lago.

De repente, ela solta um grito e corre para a margem. O homem a segue, sem ainda entender o que estava acontecendo. Ficam estarrecidos quando constatam que, atrás do menino, mas a uma certa distância, se aproxima um enorme crocodilo. Não há o que fazer. O garoto, nada com todas as suas forças e com a maior velocidade que consegue imprimir aos seus movimentos, Os pais, ficam na margem, numa atitude ímpar de espreita para agir no momento certo, Não se desesperam, parecem saber o que deve ser feito. Quando o menino se aproxima da margem os pais saltam na água indo ao seu encontro. Como num movimento orquestrado, o pai vai em direção ao crocodilo, pronto para subir em suas costas, enquanto a mãe abraça o garoto puxando-o para si. O animal abre suas enormes mandíbulas, pronto para fechá-las em cima da perna do garoto, quando o pai, já montado em suas costas, usando toda a força do mundo (que os pais adquirem quando precisam salvar um filho) puxa a parte superior da cabeça, impedindo que ela se feche. A mãe, puxa o menino, quase de dentro da boca do animal e foge da água, já com o garoto em seus braços. Os minutos seguintes são de extrema ansiedade, pois o pai ficou numa situação de muito perigo. Ao soltar a mandíbula do crocodilo, havia um enorme risco que ele se voltasse para o homem e o atacasse, desta vez, sem chance para o homem. Este, num movimento arriscado, mas inteligente, solta o animal e, ao mesmo tempo mergulha profundamente, indo para longe dele, por baixo d’água.

São instantes de imenso desespero para Jones e sua mãe, seguidos por um enorme alívio quando o veem surgir, um pouco mais ao longe, a alguns passos deles.

Os três se abraçam e choram, emocionados, assustados, mas imensamente aliviados.

O que dizer, de uma situação como esta? A atitude dos pais, em momento algum, transpareceu dúvida, medo de arriscar-se, etc. O amor pelo filho, a necessidade de sua sobrevivência, funcionava como se fosse a deles.

Sim , nossos filhos não nos pertencem, mas pertence a nós a possibilidade de mantê-los vivos e saudáveis para que a vida se realize e continue em sua plenitude. Simples assim.

  • Circe Palma

Os filhos são do mundo.

Nós apenas os tomamos como empréstimo.

Esta fala de Jose Saramago sensibiliza cada de um nós, pais ou mães,de um modo diferente, mas intenso. Na verdade todos têm uma quase certeza de que os filhos lhes pertencem. Esta é uma falsa idéia. Como nos lembra Gibram Kalil Gibram : Vossos filhos não são vossos filhos, eles não vos pertencem. Eles vêm através de vós, mas não vos pertencem. Pertencem à morada do amanhã, onde não tendes entrada, nem mesmo em sonhos! Estes pensamentos sustentam uma verdade mas, acima de tudo, nos desconfortam. É como se pais e mães estivessem sendo destituídos de seus papéis.

A função materna, na verdade, é algo maravilhoso, sublime, mágico. Tudo o que os poetas indicam em suas poesias. Tipo é viver num paraíso, é sorrir com lágrimas nos olhos, e por aí vai. Há nisto uma realidade que não pode confundir pais ou mães. Estar envolvido na vida de um outro ser humano já é, por si só, um fato extraordinariamente lindo. É como vivenciar a potencialidade da vida. Em mim, a vida do outro. A força que nos vem destas relações, alimentam a alma e nos trazem um sentimento de pertença, de realização através das próprias competências. Mas há, ou deve haver, nesta interação, uma capacidade de doação que extrapola o próprio instinto de sobrevivência pessoal.

Nesta esteira podemos também incluir a função paterna. No início, uma extensão da primeira, depois, tão importante quanto. Pais orientam, definem as regras do jogo da vida com a mesma intensidade das mães. Esta diferença se constituiu por questões culturais e podemos dizer que hoje já não fazem mais sentido.

Quem nunca ouviu histórias e fatos sobre a capacidade das mães e dos pais de salvarem os filhos sob pena de perder sua própria vida ? Algo quase instintivo também. Que força é esta que nos faz agir assim, sem pensar. Não há, no momento da vida em perigo, um instante sequer de hesitação. Uma mãe, ou pai, se atira frente ao filho, não importa o que o esteja ameaçando. Exemplo disto é a história publicada, há muitos anos, num exemplar da revista Seleções. Ver o conto "Do que os pais são capazes" na categaria Contos.