• Circe Palma

Março outra vez! A volta a escola.

Atualizado: Out 6

Março outra vez! Tudo de novo! E assim o ciclo da vida segue seu rumo!

No pátio da escola, um recomeço ou, para alguns um novo começo. Um espaço diferente, com novas propostas ou novos desafios! Os reencontros ou novos encontros, novos amigos... enfim. Nesta ciranda a vida retoma seu rumo. As águas de março fecham o verão, fecham as férias, fecham o descanso e tudo começa outra vez.


Ricardo segura muito forte a mão do seu pai! O coraçãozinho acelerado revela um medo que ainda não se apresentou de fato. Mas ele prevê que logo o pai irá deixá-lo ali, naquele campo de batalha e ... então tudo irá correr por sua conta. Olha para traz e vê sua mãe com a expressão triste de alguém que parece estar sofrendo também como ele.

Vá com seu pai querido, diz ela! Mas Rodrigo sabe que as palavras não traduzem a verdade. Ela quer que ele fique no seu colo e quando se abaixa para lhe dar um beijo, o menino percebe seus olhos marejados.

Mas, papai, tenta dizer. Eu posso voltar amanhã. Hoje todo mundo está com muito trabalho. O pai, olha, complacente e não responde apenas sorri e continua caminhando como se estivesse procurando alguém. E está. Onde estamos indo? E onde ele vai me levar, pensa o garoto angustiado. Faz nova tentativa. Papai, olha só, eu quero voltar com a mamãe. E numa última cartada, diz que ela está muito triste. Acho que está precisando de mim. Nada. O pai nem responde. Veja, Ricardo. Lá está sua professora.

Ai, meu deus! Diz ele bem baixinho, para o pai não ouvir. O que você disse? Não, eu não disse nada. Não tenho mais chance.

Sr. Sérgio cumprimenta educadamente a senhora de cabelos escuros, amarrados no alto da cabeça, vestindo um jaleco branco, comprido até a metade da perna. Bom dia! A senhora é Dona Fabiana? Sim. Este é Ricardo! Mas o menino se escondeu atrás das pernas do pai e ficou o menor que pode, numa intenção frustrada de que ela não o visse.

Em vão. Num sorriso largo, mostrando todos os dentes que pareciam não caber dentro da boca, ela o recebe com aparente carinho e toma sua mãozinha retirando-a de dentro da enorme e segura mão do pai de Ricardo. Ele está entregue o senhor pode ir. Mas... Não se preocupe ele vai ficar bem. As dez horas o senhor ou alguém da família pode vir buscá-lo.

Uma esperança para Ricardo. Alguém viria para resgatá-lo do cativeiro. A professora se afasta levando o menino e as outras crianças e desaparece no corredor do prédio. Sérgio fica um momento sem ação. Nunca tinha experimentado aquela sensação de perda. Sabia que era só um afastamento, mas o sentimento era de perda mesmo. Correu até a esposa e a abraçou numa espécie de consolação.

Enquanto seguiam para o portão de saída junto com os outros pais, perceberam que nem todos, aliás bem poucos, estavam com este sentimento de desolação. Não pareciam apreensivos.

Ricardo seguia com a professora, que lhe segurava a mão com firmeza. Estranho, pensa o menino. Ela tem uma mão macia. Aos poucos sentiu-se novamente seguro. Pela primeira vez, desde que entrara naquele pátio, ousou olhar ao redor. Viu outros meninos e meninas também assustados como ele. De alguma forma, isto o tranquilizou.

Sofia era uma menina loirinha, com fita azul no cabelo e parecia estar mais assustada do que os outros, pois ela chorava compulsivamente. Ricardo, amoroso, soltou a mão da professora e sentou-se ao lado dela. Pensou em acalmar a menina e, a ele também. Era tudo tão diferente da escolinha onde ele estava. Uma sala grande, muitas almofadas de um lado, poucos brinquedos e diversas mesinhas individuais.

Porque você está chorando? Eu quero a minha mãe! Dito isto o choro voltou a ficar mais alto e mais desesperador. O que você disse a ela, foi a pergunta dirigida acusadoramente a ele. Ricardo pensou se deveria chorar também, mas decidiu que não. A verdade sempre era a melhor solução, dizia sua mãe. Só perguntei porque ela tava chorando. Disse que queria a mãe dela. Só isso. E lutava para conter as lágrimas que, teimosas, tentavam rolar pelo rosto.

Muito bem crianças. Não há motivos para tristezas nem choros. Aqui nós vamos nos divertir muito. Vamos brincar, fazer amigos e descobrir coisas novas.

Ufaaa! Pensou o menino. Então acho que vai ser bom. Você não acha? Como é o seu nome? Sofia. O meu é Ricardo. E pronto nasceu aí uma bela amizade.

Sentem-se um em frente ao outro, orientou a professora. Sofia e Ricardo imediatamente se posicionaram e sorriram. Oba, ela parou de chorar, pensou Ricardo. Suas lágrimas, também foram embora.

Agora quero que cada um de vocês faça um desenho para o companheiro que sentou-se a frente. Podem usar tinta, lápis de cor, lápis de cera, o material que quiserem.

Ricardo foi até a estante onde havia muitos materiais e escolheu um envelope com EVA. Escolheu um vermelho e fez dois corações. Entregou um para a menina e guardou o outro. Pronto, disse, ao final de certo tempo. Este é para você. Mas você não pode mais chorar. Tá. E o outro, perguntou a menina? É para a minha mãe.Crianças, diz dona Fabiana. Arrumem todos os materiais. Seus pais já estão vindo para buscá-los.

E então filho? como foi seu primeiro dia de aula?

Muito bom, mamãe. Fiz isto para você!

Que lindo! Um belo coração, adorei. Encontrou amigos? Sim. A Sofia.


Comentário:

Sim, as águas de março fecham o verão, fecham as férias, fecham o descanso dos guerreiros. E tudo começa outra vez. No pátio da escola, de qualquer escola, podemos sentir a alegria das crianças, reencontrando os amigos, dos professores reconhecendo quem serão seus novos aluninhos e das mães, num misto de felicidade e tristeza. O afastamento de seus pequenos, ainda que por uma boa causa, lhes entristece um pouco, mas a certeza de que estarão bem encaminhados lhe traz alento.

A volta ao trabalho, ao ritmo talvez acelerado a que estamos submetidos, nos mostra a importância que a vida tem para cada um de nós. O reconhecimento dos colegas, a sensação de estar, de alguma forma, contribuindo para o bem estar do outro, o sentimento de pertença que nos faz reconhecidos nas nossas competências, tudo isto é o que a vida nos apresenta de melhor. Portanto, retomar esta constância nos nossos afazeres não só é necessário, mas também muito prazeroso. É sentir o pulsar da vida, da convivência. É ver nas nossas relações amorosas a cumplicidade, a parceria. É compreender e, ao mesmo tempo, sentir o encanto e a magia que a vida tem. Até que a cansaço nos faça parar novamente, por um breve tempo. E até que as águas de março voltem novamente.


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