• Circe Palma

Sobre nossa saúde mental!


Quando a vida está assim, suspensa entre o ser e o vir a ser, um enorme medo se apresenta. E se ela não vier mais a ser? E se eu não for mais e se… e se… enfim. Desistimos. Desistimos de pensar porque não suportamos a possibilidade de não ser. Filosofia a parte, o fato é que a situação de uma vida em suspenso nos deixa extremamente assustados, inseguros. E isto nos remete de imediato à nossa saúde. Manter o equilíbrio emocional quando tudo a nossa volta parece estar desmoronando, ficar tranquilo quando não temos perspectivas, tudo isto nos parece impossível. Muitos medos nos acometem. O estar só, imposto pela necessidade de confinamento, as perdas econômicas, que decorrem da diminuição do trabalho, a preocupação com o futuro e o medo de adoecer e morrer. Enfrentamos um caos que nos traz ansiedade, insegurança e, muitas vezes, até depressão. Não é fácil encarar problemas de natureza tão trágica sem ficarmos abalados em nossas estruturas emocionais. Vivemos voltados em descobrir estratégias de sobrevivência.. É como nos sentimos. Sobreviventes.


Mas, felizmente, para enfrentar todo este sofrimento psicológico temos mecanismos que podem ser acionados, minimizando de certo modo, as nossas perdas.. Um deles é o caminho da arte. Através das nossas produções, é possível elaborar estes conflitos que se instalam de modo intenso em nosso cotidiano. A arte permite expor nossos sofrimentos, colocando o foco de nossas preocupações em algum tipo de produção. Neste “desvio dos problemas” torna-se possível um alívio para toda a tensão estabelecida.





Também é possível criar rotinas. Pode parecer algo muito simples diante de um problema tão complexo.As tarefas e atividades do cotidiano ao qual estávamos acostumados, foram modificadas de modo repentino, trazendo muita instabilidade. Nos vimos, de um momento para outro, restringidos de nossas atividades mais costumeiras. Isto nos desestabilizou, trazendo muita insegurança e medo. Na verdade, é importante estabelecer rotinas, pois de algum modo elas nos garantem o “de novo”, “o vir a ser”, a certeza de que a vida vai retornar ao amanhecer. Isto nos traz alguma tranquilidade. Então, definir novas rotinas que contemplem nossas atividades diárias, de trabalho, de vivências domésticas, etc, nos traz uma certa paz neste mar turbulento e confuso, sem previsão de nada, muito menos de continuar a viver.. Ainda que de pequenas coisas, mas tudo o que precisamos neste momento são certezas, sejam quais forem.


Acrescente-se a tudo isto o fato de que as manifestações de afeto e amorosidade foram, também retiradas e, de repente, não pode mais haver abraços, beijos e nem mesmo o clássico e consagrado aperto de mão, que poderia selar desde um compromisso até o aceite para o sentimento de pertença ao grupo. Estamos, então, angustiados, estressados e alguns mais do que outros, não conseguem lidar com esta situação de modo eficaz o suficiente para trazer alívio destas tensões.


A saúde mental que precisamos manter, não é aquela que nos vem de fora, de medicamentos, de mudanças externas, especialmente em situações de distúrbios reais, diagnosticados pelos médicos. Esta, a que me refiro, vem do próprio equilíbrio que pudermos encontrar, e que pode acontecer na convivência familiar, nos pequenos grupos que puderam manter-se unidos. É a saúde que encontramos, quando alguém nos auxilia, quando acontece a valorização dos nossos feitos, o reconhecimento de nossas capacidades e a força que sabemos ter, mas que nem sempre nos permitimos. Descobrir novas habilidades ou dar vazão para aquelas que sabemos possuir, nos mostra competência e, por consequência, nos fortalece. Gratificação por pequenas realizações também contam. Atividades há muito tempo esquecidas, como jogar, ver filmes, etc. nos mostram um aspecto da vida que já havíamos esquecido. O estar junto, quando em família, pode se tornar uma excelente forma de estar consigo também. É isto que nos fortalece.


Para enfrentar este desconforto emocional, suportando da melhor forma possível este sofrimento, precisamos muito uns dos outros. Não apenas do acompanhamento dos familiares, mas, muitas vezes, de uma ajuda profissional. Principalmente, quando se vive só, sem a família por perto, como apoio. O distanciamento a que nos vimos obrigados, pesa de modo diferente para cada grupo de pessoas. Por consequência, causa diferentes mudanças nos comportamentos. Algumas pessoas, modificam suas atitudes diante de situações estressantes, experimentando novos sentimentos. Há uma modificação profunda no modo de vida de cada um, a depender da forma como reage frente às diferentes situações. É preciso estar atento a este cuidado que não é somente para o outro, mas também para si mesmo. É preciso adotar comportamentos que nos levem a recuperar confiança e certeza em relação a este momento tão complicado na vida de todos nós.


Circe Palma - Psicopedagogia e Terapia Familiar


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