• Circe Palma

Um dia de cada vez!




O fato é que não sabíamos mais viver um dia de cada vez. Vivíamos o amanhã. O próximo fim de semana, o próximo feriado, a próxima compra, a próxima viagem, o próximo carro... o próximo... o próximo... enfim. E o hoje? O Agora? Jogávamos lá pra frente e seguíamos tocando.

Não foram poucas as vezes que ouvimos alguém referir que não tinha tempo. E sempre acompanhado do “desculpas, mas não posso, não tenho tempo”. Não tínhamos tempo para esperar, para olhar a necessidade do outro, a companhia e a presença deste outro, ainda que fosse alguém muito próximo, como um filho até. “Agora a mãe, o pai não pode, depois a gente brinca”. E o filho, na sua simplicidade aceitava, aquietava-se, mas sabia que este depois nunca chegaria. Aos familiares, aos amigos, aos colegas, então...nem pensar que seríamos capazes de dispor do nosso precioso tempo. O trabalho nos consumia e nem ao menos sabíamos porque trabalhávamos. Para ter mais condições de ... consumir? Mostrar algum status pelo qual fossemos admirados? Ocupar um lugar de destaque na pirâmide social? Enfim.....Talvez ... Mas a que preço tudo isto?

Porque chegamos neste ponto? Porque aceleramos de tal forma a roda da vida que, semelhante ao gira-gira das pracinhas de brinquedo, não conseguíamos mais parar, porque algum outro acelerava mais e mais. Estávamos tontos, perdidos. Sem saber onde seria o freio daquilo tudo. E ainda pior, sem perceber o quanto estávamos sem direção e em qual rota de colisão estaríamos indo.

Então, de uma forma repentina, muito repentina, paramos. Fomos obrigados a parar. Nos isolamos uns dos outros e só então, percebemos que estes outros existem. E, tristemente observamos que eles se vão em grandes grupos e que ficamos inertes quanto a isto. Que precisamos deles! Que não conseguimos viver assim tão longe, e, no entanto tão perto. Experiências amorosas começaram a surgir. Estamos solidários, atentos ao outro que precisa de algo que possamos oferecer, de nós portanto. Notamos as presenças, as vidas e, ao mesmo tempo olhamos para nós mesmos.

E o que vimos? Quem vimos?

Esta é uma reflexão profunda que a cada um de nós cabe fazer. Muitos descobrem o quanto de si mesmos não conheciam. Outros percebem a importância que nem sabiam que tinham. E por aí vai. A reflexão que podemos fazer neste momento, porque estamos vivendo o agora nos traz o que precisamos. Nos mostra que é possível parar e viver. Simplesmente viver. Ser alguém, independente daquilo que temos.

Viver um dia de cada vez nos traz o tempo que precisamos para nos encontrar conosco mesmo e assim nos voltar para toda a humanidade, na pessoa daquele que estiver amorosamente mais perto de nós.

Que Deus nos abençoe a todos!

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